O Que É Marcação a Mercado

Marcação a mercado é o processo de atualização diária do preço de um título de renda fixa com base nas taxas praticadas pelo mercado naquele momento. Isso significa que, entre a data de compra e o vencimento, o preço do seu título oscila — para cima ou para baixo — conforme as expectativas do mercado para juros e inflação.

É a marcação a mercado que explica por que você pode ver seu Tesouro IPCA+ ou Tesouro Prefixado com rendimento negativo na tela da corretora, mesmo sendo renda fixa. O título não deixou de ser seguro — o que mudou foi o preço que o mercado pagaria por ele hoje.

A regra fundamental é:

  • Taxas de mercado sobem → preço do título cai
  • Taxas de mercado caem → preço do título sobe

Essa relação inversa é a base de toda a dinâmica da marcação a mercado.

Por Que os Preços dos Títulos Oscilam

Para entender a oscilação, imagine que você comprou um Tesouro Prefixado a 14% ao ano. Dias depois, o mercado passa a exigir 15% para títulos semelhantes. Quem compraria seu título a 14% se pode comprar um novo a 15%? Ninguém — a menos que seu título fique mais barato, compensando a taxa menor.

Esse ajuste de preço é a marcação a mercado em ação. O Tesouro Nacional recalcula o preço de cada título diariamente para refletir as condições atuais.

Quais títulos são mais afetados

TítuloSensibilidade à marcaçãoMotivo
Tesouro SelicMínimaTaxa flutuante, acompanha o mercado
Tesouro Prefixado curtoBaixa a moderadaPrazo curto reduz o impacto
Tesouro Prefixado longoAltaTaxa fixa + prazo longo = máxima sensibilidade
Tesouro IPCA+ curtoModeradaComponente real fixo + prazo médio
Tesouro IPCA+ longoAltaComponente real fixo + prazo longo

O Tesouro Selic praticamente não sofre marcação a mercado porque sua taxa flutua diariamente com a Selic. Já o Tesouro IPCA+ 2045 pode oscilar mais de 20% em um ano — como se fosse renda variável.

A Matemática da Marcação a Mercado

A relação entre taxa e preço segue uma fórmula de valor presente. Para simplificar:

Preço do título = Valor de face / (1 + taxa)^prazo

Quanto maior o prazo e quanto maior a variação da taxa, maior a variação do preço. Exemplo para um Tesouro Prefixado com valor de face de R$ 1.000 e vencimento em 5 anos:

Taxa de mercadoPreço do títuloVariação
12%R$ 567,43+12,1%
13%R$ 542,76+7,2%
14% (compra)R$ 519,370% (base)
15%R$ 497,18-4,3%
16%R$ 476,11-8,3%

Uma variação de apenas 2 pontos percentuais na taxa (de 14% para 16%) gera uma perda de 8,3% no preço. Para títulos mais longos, o efeito é ainda mais pronunciado.

Marcação a Mercado na Prática: Cenário 2026

Em 2026, com a Selic em 14,25% e taxas reais historicamente elevadas, a marcação a mercado é especialmente relevante:

Cenário otimista (Selic cai)

Se o Banco Central iniciar um ciclo de corte da Selic — algo que economistas projetam para o segundo semestre de 2026 — os títulos longos se valorizarão. Um Tesouro IPCA+ 2035 comprado a IPCA + 7,20% pode ter valorização de 15% a 25% se a taxa cair para IPCA + 5,50% em 12-18 meses.

Cenário pessimista (Selic sobe)

Se a inflação surpreender e o Copom elevar a Selic acima de 15%, os títulos longos sofrerão desvalorização temporária. O mesmo IPCA+ 2035 pode cair 10% a 15% no preço de mercado.

Cenário neutro (Selic estável)

Com Selic estável, o título converge gradualmente para o valor de face, rendendo a taxa contratada. A volatilidade é menor, mas o carrego (rendimento da taxa) segue sendo atrativo.

Estratégias com Marcação a Mercado

1. Comprar e manter (hold to maturity)

A estratégia mais simples: compre o título e leve até o vencimento. Independente das oscilações intermediárias, você receberá exatamente a taxa contratada. A marcação a mercado se torna irrelevante.

Indicado para: reserva de longo prazo, aposentadoria, quem não acompanha o mercado.

2. Trade de marcação a mercado

Compre títulos longos quando as taxas estão altas e venda quando caírem, embolsando o ganho de capital. Em 2016, investidores que compraram Tesouro IPCA+ a 7,5% e venderam em 2019 a 3,5% tiveram retornos de 40% a 60% — sem esperar o vencimento.

Indicado para: investidores com conhecimento de ciclos econômicos e tolerância a risco.

3. Escada de vencimentos progressiva

Compre títulos com vencimentos escalonados. A cada vencimento, reavalie as taxas e reinvista. Se as taxas caírem ao longo do caminho, os títulos mais longos da escada terão se valorizado — funcionando como ganho bônus.

Indicado para: investidores de perfil moderado que buscam equilíbrio entre carrego e oportunidade.

Como Acompanhar a Marcação a Mercado

Para monitorar a marcação a mercado dos seus títulos:

  1. Tesouro Direto (site oficial): acesse "Meus Investimentos" e veja o valor atualizado de cada título
  2. Corretora: a maioria exibe o preço de mercado atualizado na área de renda fixa
  3. Taxas indicativas da Anbima: referência oficial para precificação de títulos públicos
  4. Relatório Focus do Banco Central: projeções de Selic e IPCA que influenciam as taxas futuras

Dica importante

Não confunda rendimento contratado com rendimento de mercado. Se você comprou IPCA + 7% e a tela mostra -5% de retorno, o título não está rendendo -5%. Ele continua rendendo IPCA + 7% até o vencimento — o -5% é apenas o preço que o mercado pagaria hoje se você vendesse.

Armadilhas da Marcação a Mercado

1. Vender no pânico

Quando o extrato mostra rendimento negativo, muitos investidores resgatam com prejuízo. Isso transforma uma perda contábil em perda real. Se o objetivo era o longo prazo, resista à tentação.

2. Ignorar o prazo do objetivo

Se você precisa do dinheiro em 2 anos, não compre Tesouro IPCA+ 2045. A volatilidade de marcação pode gerar prejuízo justamente quando você precisar resgatar. Combine o vencimento do título com o prazo do objetivo.

3. Concentrar em um único vencimento

Investir tudo em um título longo amplifica o risco de marcação. Diversifique entre prazos para suavizar a volatilidade da carteira.

4. Confundir marcação com risco real

A marcação a mercado é volatilidade de preço, não risco de calote. Títulos públicos são garantidos pelo governo federal. O risco é vender na hora errada, não perder o capital.

Marcação a Mercado em Outros Títulos

A marcação a mercado não é exclusiva do Tesouro Direto:

  • Debêntures e CRI/CRA: sofrem marcação, mas com menor transparência — os preços no mercado secundário podem divergir significativamente do "justo". Leia Debêntures: riscos e rentabilidade.
  • CDBs: tecnicamente sofrem marcação, mas como a maioria não tem mercado secundário ativo, o investidor não percebe. CDBs com liquidez diária são recomprados pelo emissor pelo preço da curva (sem marcação).
  • Fundos de renda fixa: todos os ativos do fundo são marcados a mercado diariamente, refletindo no valor da cota. É por isso que cotas de fundos de renda fixa podem cair. Entenda o impacto tributário em Come-cotas: impacto nos fundos de renda fixa.

FAQ

A marcação a mercado pode fazer eu perder dinheiro no Tesouro Direto?

Se você vender antes do vencimento em um momento de taxas mais altas, sim — terá prejuízo real. Se levar até o vencimento, receberá a taxa contratada independentemente das oscilações.

Por que meu Tesouro IPCA+ está negativo?

Porque as taxas de mercado subiram desde sua compra. O preço do título caiu, mas isso é apenas o valor de mercado atual. Se levar ao vencimento, receberá IPCA + a taxa que contratou.

Tesouro Selic sofre marcação a mercado?

Minimamente. Como a taxa do Tesouro Selic flutua com a Selic, a marcação gera oscilações quase imperceptíveis. Por isso, é o título mais indicado para reserva de emergência.

Quando é o melhor momento para comprar títulos longos?

Quando as taxas estão em patamares historicamente altos — como em 2026. Taxas de IPCA + 7% ou mais são raras e oferecem tanto carrego atrativo quanto potencial de ganho com marcação se as taxas caírem.

Como calcular o ganho com marcação a mercado?

Uma aproximação: multiplique a variação da taxa pela duration do título. Se a taxa cair 1 ponto percentual e a duration for 7 anos, o ganho será de aproximadamente 7%. Ferramentas online de simulação do Tesouro Direto facilitam esse cálculo.